"She's Not Me" Madonna no Parque da Bela Vista, 14 de Setembro de 2008
A terceira vinda de Madonna a Portugal fez correr rios de tinta logo de início. Os 75.000 bilhetes esgotaram em menos de uma semana. No fim-de-semana passado sentiu-se o país parar para aguardar a chegada da “Rainha”. Afinal de contas não é modesta ou subtil a entrada de Madonna no palco do Parque da Bela Vista, com uma indumentária de gala subvertida pelos seus padrões de decência, montada muito pouco formalmente num trono reluzente. E enquanto largava o assento, o ceptro e grande parte da roupa, o ícone de 50 anos mostrava logo à partida porque se mantém nesse mesmo trono há mais de duas décadas e porque parece que, nem mesmo na morte, ele será ocupado por outro corpo que não o dela. Afinal de contas a imortalidade da sua iconografia reside também no facto de nenhuma sósia conseguir invocar todos os atributos da mesma forma que ela consegue. Não é a melhor cantora, não é a melhor bailarina, não é a melhor compositora... Contudo quando se apresenta em palco todas as complicações de justificação do estatuto de Madonna enquanto força maior da cultura popular se dissipam imediatamente. A razão é ela mesma e é irrevogável a asserção do seu inclassificável carisma, e aí deixa de ser uma mera estrela pop com um rasto infindável de hits e looks para se colocar firmemente no reduzido panorama de figuras míticas que povoam as histórias das nossas vidas.
Desta feita apresentou-se em Portugal com o intuito de promover o amado – e igualmente odiado – Hard Candy, um dos mais falsamente acessíveis álbuns da sua carreira. Depois de uma introdução em vídeo da maquinaria por detrás do símbolo, Madonna ostenta-se transfigurada numa espécie de Willy Wonka. A Sticky & Sweet Tour é a sua fábrica de chocolates e retribui o ruído ensurdecedor de boas vindas por parte de um público rendido com o tema de abertura, Candy Shop, uma sugestiva receita. Entoa enquanto dança com maior frenesim que bailarinos metade da sua idade: “My Sugar is Raw”. Poderia ser um dos motes principais deste concerto; apesar de toda a esplendorosa produção, sem dúvida uma das maiores a passarem pelo nosso país, e a teatralidade meticulosa na encenação de muitos números parece haver um minimalismo e visceralidade quase inédito na comunicação de Madonna com o público. Uma mensagem directa e facilmente perceptível: a de que estamos a ficar sem tempo. O som do relógio - tick tock tick tock tick tock – assombra-nos durante quase todo o concerto, como se, à imagem do que diz em 4 Minutes, o tempo não perdoasse a quem dele estava a despender.
Existe então um sentimento de urgência em tudo o que acontece, inclusivamente na própria entrega incansável de Madonna em palco. Cada gesto parece poder ser o último, cada passo uma promessa de fim e cada nota um grito derradeiro. Talvez por isso que ela pareça mais solta e acessível, por palavras e especialmente com tudo o resto, do que alguma vez foi possível de ver num espectáculo seu. Não que os 50 anos comecem a pesar, mas parece existir algo inadiável no modo como decide conjurar o seu próprio inextinguível espírito de sobrevivência. E tal é necessariamente transmitido na escolha de músicas e na forma ressuscitada como foram reveladas. Escolher uma mão cheia de momentos num espectáculo tão coeso e fluido parece infrutífero mas não há como evitar fazê-lo; pode-se assinalar a corrompida e coreografada lascívia de Vogue, a inocência reconduzida em versões urbanas e joviais de Borderline ou Music ou simplesmente mencionar a loucura esquizofrénica que os dois últimos blocos despertaram no público: quer na folia cigana de La Isla Bonita/Lela Pala Tute, na transcendente confissão de Devil Wouldn’t Recognize You e um testamento para além da vida de You Must Love Me, quer na inominável euforia das guitarras sujas de Hung Up, na celebração espacial de Ray of Light e, principalmente, na rave religiosa de Like a Prayer, em que a catarse pessoal tomou contornos universais na forma como aquela multidão de quase uma centena de milhar de almas vivia aqueles imortais momentos e os transcendia de forma apaixonada e exaltada.
Mas um dos momentos-chave, não só do concerto como de toda a carreira de Madonna, surge com a desafogada interpretação de um tema de Hard Candy: She’s Not Me. Enquanto os gigantescos ecrãs mostram várias fases da sua carreira, ela, num requinte de humor característico, goza consigo própria: na forma como canta, anda e dança. Surgem então no final de uma passadeira que atravessa o público, quatros personas distintas de Madonna, entre as quais a delinquente e virginal noiva de Like a Virgin. Uma a uma, e em crescendo de violência, a verdadeira Madonna vai desmascarando-as e sufocando-as até não serem mais que emblemas vestigiais. Termina a performance com uma corajosa dança de emancipação em que também ela deixa cair a máscara. O teor simbólico não passa ao lado de ninguém: ninguém conhece Madonna... nem mesmo ela própria. Esta incessante busca de identidade parece mesmo ser o que a move e o que a torna singular e inalcançável. Talvez seja mesmo essa a razão de todo este encanto e tentação em seu redor: porque é humana.
75 mil pessoas para uma mulher. Tic Toc, Tic Toc ouviu-se o tempo todo. Nas 2 horas de concerto e nas horas de espera (para alguns, dias...). Lá dentro, no fim, percebi porque é que houve gente a acampar lá. Mas já lá vamos.
Madonna, claro. Primeiro que tudo, há uma coisa a ressalvar. Botox, sim, plásticas, talvez, mas aquela energia e vigor (aos 50, ainda por cima) não se ganham numa mesa de operações. Madonna é um poço de adrenalina. É um motor. Desde a primeira vez que se ouviu Like a Virgin que se percebeu que esta mulher nunca seguiu nem segue ninguém. É sempre a primeira e leva toda a gente atrás.
Mas voltemos ao concerto no Parque da Bela Vista. Para quem, como eu, foi ver pela primeira vez, saiu com sede... faltou ouvir Holiday, Like a Virgin, Crazy for you, Secret, Papa don't preach, Material girl, Jump e até mesmo True Blue. Claro que uma produtora de clássicos não pode cantá-los todos. E, bem vistas as coisas, a tour chama-se Sticky and Sweet e é a digressão do último álbum. Mas deu vontade que ela deixasse alguns dos hip-hops recentes para trás e nos brindasse com mais eighties...
Falando de coisas boas... Há que agradecer, no entanto, a presença de Human Nature, Into the Groove, La Isla Bonita, Like a Prayer, Ray of Light e do espectacular Vogue, misturado com o 4 minutes (que foi sempre aparecendo ao longo do concerto, a fazer lembrar afinal a razão daquilo tudo. tic toc, tic toc.). De resto, um espectáculo à Madonna do século XXI: muitos videos, um excelente DJ, um carro em palco e magníficos bailarinos.
Houve quem se assustasse quando ela perguntou "Habla español?" (a nossa eterna falta de auto-confiança nacional, disfarçada de patriotismo, ouviu-se em comentários como "será que ela acha que aqui se fala espanhol?"). A minha resposta é: claro que não. Foi só a introdução para Spanish Lesson e a vibrante versão de La Isla Bonita, num momento que misturou o flamenco espanhol com a dança e música cigana da Roménia, que até deu direito a umas palavras cantadas em romeno. Os guitarristas, o violinista com ar alucinado e a lindíssima bailarina "cigana" ajudaram a criar um dos melhores momentos do concerto, que só ficou atrás do Like a Prayer, cantado por um gigante coro gospel de 75 mil pessoas. Nós.
Foi interessante também o lado mais rock de Madonna, com guitarradas pesadas (saídas das mãos da própria) e a interacção com o público. Sim, naquela noite houve quem tocasse na Madonna. E isso é com certeza um instante para recordar toda a vida. O palco que se enfiava pelo meio das pessoas, ao estilo prémios MTV, proporcionou a quem estava à frente um espectáculo à parte, muito diferente daquele que se via através do ecrã e com o som a voar de um lado para o outro. Ao contrário do que eu esperava, aquele não foi um concerto para se ver com uma "panorâmica geral". Era mesmo para estar na primeira fila, lá no meio da chamada "molhada". Ao estilo rock 'n roll.
É que, Madonnas à parte, não se compreende o que passa na cabeça das pessoas que pagam 60 euros para ir para a Bela Vista beber cerveja e conversar com os amigos. É difícil sentir a euforia e a emoção de um concerto com gente à volta a falar da novela de ontem e a perguntar aos gritos "vou buscar mais uma, também queres?". Foi aí que eu percebi porque é que há gente que vai para ali 2 dias antes. A mim deu-me muita vontade de cortar caminho até lá à frente, para ver a Madonna e os bailarinos em vez de formiguinhas coloridas e saltitantes ou figuras num ecrã com o som em delay.
Mas há coisas que só a Madonna consegue. Em vez de "nunca mais pago para isto", saímos de lá a dizer "para a próxima, venho cá dormir; a ver se na próxima ela canta aquela música". É que aquela mulher tem mesmo qualquer coisa. Sabemos que não é poder vocal (como ficou bem demonstrado no desafinado Borderline....), mas também não é só o espectáculo montado ao pormenor, recheado dos melhor profissionais da dança e de recursos técnicos pouco acessíveis à maior parte dos músicos. É o carisma que faz da Madonna, a Madonna. Ela própria não se intitula cantora, mas artista. É um ícone da moda, da dança, do espectáculo e, sim, da música pop. Como toda a gente, ela guarda em si 1000 mulheres diferentes. A diferença é que ela tem coragem de as deitar todas cá para fora, desde a mãe mais extremosa até à sex bomb mais descarada ("it's human nature..."). E é isto, ladies and gentlemen, que faz desta senhora a maior artista do mundo.
Não deve haver artista mais difícil de categorizar que Björk Guðmundsdóttir. Desde que enveredou por uma prolífica carreira a solo em 1993, depois do rompimento com os Sugarcubes, que tem trilhado um caminho sempre marcado pelo inesperado. Depois de um início estrondoso a conquistar os corações indie e o mercado mainstream, desde cedo deu para compreender que o propósito maior desta força da natureza proveniente das paisagens escarpadas da Islândia nunca se revelaria o mais acessível. Depois da sublimação pop de Debut e Post, algo mais começou a emergir. Inicialmente com a exacerbação apaixonada de Homogenic passou para o completo oposto com a quietude sublimada de Vespertine, apenas para voltar a chocar – talvez mais que nunca – com a rispidez visceral e carnal de Medúlla. No seu último passo em direcção a uma imortalidade já conquistada, apresentou-se com Volta, um distinto chamamento peregrino do centro da própria Terra.
Os espectáculos de Björk sempre foram visualmente e conceptualmente arriscados. Quando passou em 1996 pelo Coliseu dos Recreios a sonoridade industrial, suja e agressiva, nunca deixaria adivinhar que enveredaria mais tarde numa tourné pelas casas de ópera do mundo, como se de uma compositora de chamber music se tratasse e que, logo a seguir, reunisse ambos os mundos aquando da revisão de carreira, que os Portugueses tiveram a oportunidade e a satisfação de presenciar no Meco há cinco anos. Mas nada parece fazer mais sentido do que o conceito de Volta quando é concretizado ao vivo. É aparentemente o mais simples trabalho de Björk desde Debut, mostrando uma artista, que na sua presente maturidade, não desiste de descortinar mais uma das suas inúmeras e quase esquizofrénicas facetas. Como um mensageiro dos deuses antigos, Björk entrou no palco do Sudoeste a revelar à partida, e com Earth Intruders, o imenso espectáculo de cor, luz e emoções totalmente inadulteradas que se iria vivenciar. Não há aqui espaço para a racionalização, tudo é radicalmente instintivo.
Mesmo antes de entrar em palco, o decateto de metais no feminino – as Wonderbrass, todas elas islandesas – avançava para os seus lugares enquanto fazia ecoar pelo recinto uma marcha sem nação e a preconizar os inúmeros rituais heréticos que iriam ter lugar na Zambujeira do Mar. Trajadas com cores garridas, bandeiras acopladas e pinturas bélicas eram como múltiplas vozes que se reuniam numa só: na de Björk, vestida como uma princesa amazona dos tempos modernos, com todas as cores do arco-íris a flutuarem da sua saia e com um bizarro adereço que lhe cobria a cabeça. A sacerdotisa impunha assim a sua presença e convocava para si as hostes, que poderiam entrar cépticos mas sairiam certamente crentes. Esta comunhão existe num espaço muito para além do religioso e o alinhamento que escolheu para esta noite foi perfeito e mais que adequado à missa degenerada que foi o seu concerto. Em Hunter mostrava-se ainda a apalpar terreno, enquanto as batidas predatórias embrenhavam-se nas almas mais desprevenidas e ela mesma deixava rolar das suas mãos uma densa chuva de fitas. Com a dorida Pagan Poetry sentia-se já a aproximação de uma rendição, que se mostrou completa quando certamente fazia cair as primeiras lágrimas de absolvição com a dilacerante All is Full of Love. Assim se sentiu o aterrar da entidade que se tinha conjurado. Depois disto soltou-se mais do que é habitual, mostrando-se receptiva à calorosa e desembrenhada recepção que o público lhe oferecia. Era afinal de contas o penúltimo espectáculo de um itinerário que começou em Abril de 2007. A quase infindável tour reforça aquilo que se vislumbra em palco, uma tribo nómada sem destino estabelecido, que deixa um bocado de si em todos os sítios que visita e celebra. A acompanhar Björk estão também Mark Bell, companheiro de longa data e co-produtor de alguns dos seus melhores temas, nas misturas, Damian Taylor, nos efeitos sonoros e condutor da maravilhosa engenhoca Reactable, o amigo Jónas Sen nas variadas teclas e o aclamado Chris Corsano na bateria.
Após a entoação da belíssima Pleasure is All Mine, que tal como quase todas as mais anciãs canções teve direito a novas roupagens, ajustadas aos emblemas do espectáculo, chega um dos mais sublimes momentos que o Sudoeste teve oportunidade de presenciar. Björk ausenta-se para as Wonderbrass tomarem o centro do palco e arrebatarem uma multidão silenciosa com Overture, numa comovente alusão a Dancer in the Dark. Logo a seguir retorna para junto delas para apresentarem uma despida e hipnotizante versão de Immature, com a indomável voz de Björk, simultaneamente frágil e irredutível, a provocar reacções imediatas a cada nova vocalização. Podem-se contar pelos dedos os intérpretes que conseguem impregnar cada nota de uma panóplia infindável de sentimentos e ela faz certamente parte desse restrito grupo.
Enquanto esperava pela chegada de um convidado muito especial, depois de I Miss You e Who Is It, entretinha-se divertidamente a interrogar o público no meio de inúmeros e floreados “Oprrrrigados”. Esse convidado era Toumani Diabaté que intitulou de rei da kora, instrumento de múltiplas cordas, proveniente do Mali que com ela protagonizou um dos mais belos momentos da noite com Hope, uma acutilante balada primitiva, que com o virtuosismo de Toumani e os rasgados sorrisos de Björk, todos conquistou.
Estes momentos mais íntimos, partilhados com cerca de vinte mil pessoas, como o religioso Vökuro, a paisagística Wanderlust, e o emotivo retorno a casa de Anchor Song já no encore, eram intercalados com as mais puras descargas de energia. Começou com Army Of Me, esse hino de guerra que parece estar mais forte e ressonante que nunca, e que fez pela primeira vez o mar de gente tornar-se alucinantemente revolto. Mas ainda assim nada poderia augurar o que viria a acontecer no final. A romanticamente suicida Hyperballad começa com a doçura de sempre, com Björk inclusivamente a deixar o público cantar parte da música, mas o crescendo habitual é violentamente paralisado pelo perturbador irromper de um perverso beat de Mark Bell. Aqui todo o espaço circundante pareceu dissolver-se repentinamente para dar origem a uma rave espacial capaz de aniquilar galáxias inteiras. Algo que continuou a elevar-se com a chegada de (a) Pluto, com as suas batidas apocalípticas carregadas de desgarrada energia bélica. A acompanhar um poderoso ”headbanging” colectivo, Björk juntava-se ás suas Wonderbrass numa coreografia ritualista.
Mas a fatal exaustão só se poderia fazer sentir depois da última música do encore, Declare Independence, um dos temas maiores de Volta. As anteriores dedicações ao Kosovo e ao Tibete causaram controvérsia na China e impediram-na de se deslocar à Sérvia. Mas em palco o mito é outro e tremendamente pessoal. Num palco recheado de bandeiras sem nacionalidade nem associação, Björk, numa atitude neo-punk totalmente combativa, exigia que se erguessem as bandeiras mais alto. As bandeiras de um individualismo conquistado, sinais da emancipação que tinha acontecido. E numa celebração inominável a explosão derradeira deu-se com toda a pompa imaginável. Os saltos eram cada vez mais altos, os confettis celebrativos inundavam a multidão enquanto esta gritava com toda a sua alma, respondendo ferozmente aos rituais pagãos convocados. Depois desta experiência extracorporal assombra-nos a percepção que não existiam deuses extraterrenos presentes nesta cerimónia. A única coisa que Björk fez venerar foi a identidade de cada um. Independência declarada... eterna e inabalável.
Para mim o FMMSines2008 acabou hoje. Eu sei que o último concerto já foi há quase uma semana. E para mim o melhor concerto do FMMSines2008 aconteceu hoje, longe de Sines. Foi aqui em Lisboa, em pleno e repleto Grande Auditório do CCB... Enquanto em alguns céus de outras paragens se assistiu hoje a um eclipse solar, hoje assisti a um eclipse musical, em cima dum palco. Ver Tony Allen a tocar ao vivo é mais que um mero concerto, mais que apenas um espectáculo, é todo um acontecimento. Ele eclipsou-se mesmo ali à nossa frente, transformou-se num ser que comanda o nosso ritmo cardíaco, o pulsar do nosso corpo, o bombear do nosso sangue. Ele e aquela tarola com um som único. Foi este acontecimento que faltou ao FMM Sines 2008 para eu voltar para casa plenamente satisfeito. Voltando uma semana atrás e ao FMM propriamente dito, não vou fazer uma análise detalhada de todos os concertos que vi mas vou apenas falar dos que gostei. Marful - Vieram da Galiza e transformaram o Castelo num verdadeiro salão de baile com muitos ritmos latinos tradicionais à mistura. Bela presença da vocalista Ugia Pedreira e muito interessantes, pena que breves, as aparições dos bailarinos. Toto Bona Lokua - O único disco deste projecto foi para mim uma bela descoberta e um caso de paixão à primeira escuta, isto há quase um ano. Não foi por isso estranho este ser o concerto que gerava mais expectativa dentro de mim. São 3 excelentes músicos, com carreiras a solo já conhecidas, que se decidiram juntar para gravar um álbum e divertir-se. Se no disco essa boa-disposição é notória, ao vivo é contagiante. Eles riem em cima do palco e deixam o público a rir até às lágrimas. A certa altura, ouvimos o teclista a avisar Toto, Bona e Lokua que têm de continuar a tocar porque há um horário a cumprir. Foi, sem sombra de dúvidas, o concerto mais divertido de todo o Festival. Os músicos são Gerald Toto (guitarra e voz, das Ilhas Martinique - Antilhas), Richard Bona (baixo e voz, Camarões) e Lokua Kanza (guitarra e voz, R. D. Congo). Orchestra Baobab - Muita expectativa também para este concerto. Uma banda histórica da música senegalesa. Esta Orchestra formada por 4 vozes, duas guitarras, dois saxofones, um baixo e uma bateria/percussões encantou-me e deu-me uma enorme e urgente vontade de ir até Dakar, ouvir esta fusão de ritmos afro-cubanos com as melodias das guitarras muito assentes na tradição da rumba congolesa e do highlife e dançar até o sol se pôr. E depois continuar até o sol se levantar de novo. Senti, durante este concerto, uma brisa quente vinda de Àfrica que deixava a música respirar e eu a suspirar. Toubab Krewe - Primeira surpresa / descoberta do meu FMM2008. Cinco músicos americanos partem para Àfrica em 2005 para aprender a música local com os mestres. Param no Mali, na Guiné Conakri e na Costa do Marfim e por lá descobrem a Kora, o Ngoni e variadas percussões tradicionais. Juntam a isso uma guitarra pouco rock e muito funk, um baixo muito reggae e nada rock e uma bateria meio jazz / meio funk e conseguem uma fusão perfeita entre a música negra tradicional vinda de Àfrica e a música negra mais moderna vinda da América. Resultado muito interessante e a mostrarem que mereciam o palco do Castelo. De notar que foram dos poucos músicos não-africanos a tocar no excelente "Festival Au Desert" no Mali. Faiz Ali Faiz - Este "qâwall" paquistanês veio substituir outro, Asif Ali Khan, que não pôde entrar na Europa por problemas de visto. Burocracias à parte, foi um concerto belíssimo e o mais espiritual deste ano. Oito músicos, sentados em cima dum estrado montado na frente de palco, deliciaram a parte da plateia mais atenta (aquela que não estava ali só para dançar...) com os cânticos sufis, de melodias repetitivas e hipnóticas com o objectivo de nos envolver num transe colectivo até atingirmos um estado de êxtase interior. Eu posso dizer que atingi e senti-me renovado depois desta celebração, mesmo sem perceber uma palavra do mestre. Destaque para o miúdo que tocou perfeitamente as tablas durante uma hora e tal sem ter vacilado um minuto. KTU - Ainda em estado de êxtase, entraram em palco três demónios do Inferno. Depois de os ter visto no mesmo local há 3 anos atrás, eis que eles voltam ao local do crime. Eu ainda pensei estar preparado para este concerto mas acho que nunca vou estar preparado para isto. Por muitas vezes que os veja e ouça. Eles são Kimmo Pohjonen no acordeão cheio de efeitos, um guitarrista/baixista (aquele instrumento chama-se Warr e tem 10 cordas...) e um baterista (ambos ex-King Crimson). Não há maneira de descrever este concerto sem, mais uma vez, usar a palavra diabólico ou demoníaco. Aquele acordeão traz sons verdadeiramente guturais, do mais fundo das cavernas, para os temas de construção progressiva e psicadélica. Espero que voltem cá, daqui a uns anos, para repôr alguma vertigem diabólica na minha vida. Koby Israelite - Este acordeonista vindo de Israel foi meia-surpresa para mim. Já conhecia o trabalho dele na Tzadik (editora de John Zorn) mas ao vivo pareceu-me mais estimulante e excitante. Às melodias vindas da tradição Klezmer, saídas do seu acordeão, juntaram-se ritmos e desvarios jazz (por vezes quase free) e rock servidos por uma banda bastante competente e criativa composta por guitarra, teclados, baixo e bateria. De destacar o baixista Yaron Stavi, careca e gigante, que tocava com uma fúria tal que parecia não querer levar o baixo inteiro para casa. Rokia Traoré - Esta senhora vinda do Mali resolveu oferecer um dos melhores espectáculos a que já tive o prazer de assistir em toda a minha vida. Posso dizer que não estava nada à espera deste excelente concerto e que ao final da segunda música era já, na minha humilde opinião, o melhor de todo o FMM2008. Que as músicas do novo álbum eram óptimas, já se sabia. Que os músicos que a acompanhavam já tinham certa rodagem juntos, também já se sabia. Mas, mesmo assim, e com as expectativas muito lá em cima pareceu fácil superá-las. Música após música. Rokia tem uma voz fenomenal, original e criativa, como há poucas em todo o mundo. E sabe usá-la como ninguém, quente e doce quando quer, possante e cheia quando tem que ser. A acompanhá-la estavam dois músicos do Mali, um na guitarra eléctrica e outro no ngoni a assegurarem as melodias tradicionais com passagens harmónicas pelo highlife e outros dois ocidentais, um no baixo e outro na bateria, a assegurarem todo o groove psicadélico com passagens pelo funk dos primórdios. Afro + Funk = Rokia! De realçar a bela senhora que fazia segundas vozes e que tinha os passos de dança mais cool de todo o universo. Tenho a impressão que o verso "Africa woman is a lady..." foi dedicado a ela. Pelo menos por mim, foi. Apaixonante.
Dia 27 de Julho de 1983 nascia um dos maiores ícones culturais contemporâneos [e quatro dias depois, yours truly]. Não é a data de nascimento mas sim o lançamento do homónimo primeiro álbum de Madonna, mais tarde reeditado com o nome The First Album aquando da altura do sucesso de Like a Virgin. Por muitos anos que passem, Madonna é dos álbuns dos anos 80 que mais significância parecem ainda ter nos dias de hoje, com uma ressonância imensurável. Os álbuns que o sucederam, Like a Virgin e True Blue, são dois dos álbuns de Madonna que mais venderam no mundo, mas a análise actual de ambos encontra para além de algumas das melhores canções – curiosamente todas elas singles - da cantora/compositora/produtora/dançarina/performer, também alguns dos seus maiores insucessos enquanto tradutora máxima da linguagem pop. Esses momentos mais pobremente concretizados são algo marcados por uma datação inevitável, de algo que definiu e foi definido pela época em que surgiram.
Madonna – o álbum - continua intemporal e inexplicavelmente moderno, como se toda a grande música electrónica de dança que se faz hoje tivesse aqui a sua origem fulcral. Uma origem inesperada e quase acidental, visto que Madonna sempre quis ser bailarina até chegar a Nova Iorque e se juntar a uma série de bandas, onde foi guitarrista, baterista e vocalista, todas fracassadas. Mesmo passando fome diariamente decidiu não deixar-se mais moldar pelos sucessos da altura e traçar o seu próprio caminho, assente na palpável ligação às ruas e a uns estilo inconfundível e inédito. E dos sintetizadores montados na sala de um apartamento diminuto em Manhattan nascem e desenvolvem-se todas as bases para o álbum Madonna. A euforia contagiante de Holiday, a romântica inocência de Borderline, o delírio disco de Everybody e o chamamento carnal de Burning Up continuam a ter ecos um pouco por todo o lado. Aliás é um objecto que marca a própria artista, polémica entrada directa o ano passado para o Rock and Roll Hall of Fame, que, no seu último suspiro contratual com a Warner, decidiu revisitar as raízes urbanas e actualizá-las com um som mais “mainstream”. Mas quem ouve Madonna e depois Hard Candy percebe que não há aqui quaisquer coincidências enquanto alusão às origens, como que a fechar um capítulo para sempre. Um capítulo de 25 anos de irrevogável conquista do mundo.
Sabem o que é bom ouvir no verão? Bossa nova. Mas falo do verão brasileiro e, no Brasil, é verão o ano inteiro.
Comecem com Samba da benção, música de Baden Powell e letra de Vinicius de Moraes, o poeta.
"Para fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ senão não se faz um samba não"
"Fazer samba não é contar piada/ quem faz samba assim não é de nada/ um bom samba é uma forma de oração/ porque o samba é a tristeza que balança"
Surpresos? Este é Vinicius, como diz o próprio, "o branco mais preto do Brasil". É assim mesmo. O samba, o amor, a vida, nada vale a pena se não se sofrer. Se não se viver a sério. É sobre isso a sua poesia, por exemplo em Como dizia o poeta ("a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu").
Sigam com o Samba da benção. Vinicius pede a benção a artistas brasileiros. Escrevam esses nomes num papel. Depois procurem canções de todos e deliciem-se. Verão que todos se cruzam.
Parem um pouco mais n'"o maestro António Carlos Jobim". Oiçam Desafinado, Corcovado, Eu sei que vou te amar (a versão de Caetano Veloso é uma delícia!). Deliciem-se com Samba do Avião, Borzeguim, Água de beber, Felicidade. Não se esqueçam de Wave, Samba de uma nota só e Chega de saudade (onde tudo começou, pelas mãos mágicas e a voz incrivelmente afinada de João Gilberto).
Aquele jeitinho suave de cantar, a batida jazzística do violão, os poemas sobre o amor, sobre o Brasil, sobre a dor, tudo cozinhado deu um mundo de músicas bonitas (não consigo encontrar melhor palavra). E desafio todos aqueles que dizem que não gostam de melodias bonitas a não balançarem ou sorrirem a ouvir duas das mais belas canções de sempre, A garota de Ipanema e Águas de Março (na deliciosa versão de Tom e Elis).
Ultimamente, estou viciada em Piano na mangueira, poema lindo de Chico Buarque (cuja existência agradeço a deus todos os dias) para música linda de Jobim. Há um versinho que é quase uma perfeita e subtil definição da bossa nova:
A minha música não é de levantar poeira, mas pode entrar no barracão...
Porque nem só os filmes precisam de banda sonora e por algum tédio existencial decidi "engendrar" uma playlist de temas ideais para serem vividos como pano de fundo desta altura do ano. Podem ouvi-los no player ao lado. Aqui fica a listagem:
1. MGMT – Time to Pretend This is our decision, to live fast and die young.
2. Róisín Murphy – Movie Star You'll be director, and I’ll be your movie star.
3. Vampire Weekend – Walcott Walcott, fuck the women from Wellfleet, fuck the bears out in Provincetown, heed my words and take flight.
4. Devendra Banhart – Carmensita Si la noche te persigue entrégate a ella, o dile que tienes dolor de cabeza.
5. Madonna – Incredible Sex wit you is… incredible, let’s finish what we started.
6. Tricky – Slow Slow down and dance with me.
7. Beck – Gamma Ray Your brains are bored like a refugee from a house that's burning and the heat wave's calling your name.
8. Björk – Wanderlust (Matthew Herbert Remix) I have lost my origin and I don't want to find it again.
9. Uffie – F1rst Love Damn I wonder why I broke up with that fuckin’ chick.
10. She & Him – Sweet Darlin’ Now I’m a little bit older, a little bit bolder, never so shy.
11. Final Fantasy & Ed Droste – Possibly Maybe Electric shocks? I love them! With you a dozen a day.
12. Scarlett Johannson – Fannin’ Street You'll be lost and never found, you can never turn around; don't go down to Fannin' Street.
13. Cat Power – Metal Heart [2008] Losing the star without a sky, losing the reasons why You're losing the calling that you've been faking.
A New Musical Express e a Uncut, publicações de culto britânicas, definiram o Optimus Alive 2008 como um dos festivais de música a não perder neste Verão europeu. Uma vitória antecipada para a Everything is New de Álvaro Covões, antigo sócio da Música no Coração, a juntar a outras deste ano, como a de roubar Madonna a Espanha. Outra vez. Mas o cartaz reunido nesta edição, que passará a marcar todas as outras a partir de agora, mereceu toda a promoção internacional que obteve. O ecletismo e qualidade quase esquizofrénica das bandas causaram uma vontade de marcar presença em todos os concertos, tarefa que se revelou fisicamente impossível.Ao contrário do que acontece em maior parte dos festivais nacionais, não houve qualquer tentativa de esconder a disparidade dos artistas convidados ao criar dias mais ou menos temáticos de forma a enquadrar melhor os gostos do público. Uma atitude bizarra para muitos, hedonista para outros. A aparição de Buraka Som Sistema depois de Within Temptation, que por sua vez actuaram depois de Bob Dylan, é no mínimo atrevida, mas só veio a reforçar a identidade multi-polarizada do festival, que apesar de contratempos de cancelamentos e ingenuidade da organização a nível da segurança e acessos, foi uma aposta ganha e que ainda virá a colher muitos frutos.
Dia 1
Chegados com um álbum de estreia aclamado pela crítica e pelo público mais atento, os nova-iorquinos Vampire Weekend aterraram no palco secundário – Metro On Stage – para a primeira enchente do festival. A mescla de rock e ambiências descontraídas rapidamente ecoaram pelo recinto. O público ouviu deliciado as fiéis reproduções do álbum homónimo, como “Walcott”, “A-Punk” ou “Mansard Roof”, com sons ideais para serem vividos e consumidos nesta época. Ainda os Spiritualized não tinham terminado a sua actuação no palco Optimus (o principal), sobem ao mesmo palco os MGMT.
E se as coqueluches do indie rock tinham servido exactamente aquilo que prometiam, os seus vizinhos entregaram uma actuação menos electrónica e muito mais eléctrica do que se esperava. Muitos sentiram-se defraudados, mas outros viram a emergência de uma banda capaz de muito mais do que ser uma “one-album-wonder” e a segurança e inventividade mostradas vão decerto dar-lhes “pernas para andar”. As músicas de Oracular Spectacular ganharam uma dimensão inesperada e com recorrente alusão a um rock mais psicadélico e elaborado. A festa electrónica foi apenas consagrada na última actuação com “Kids” a fazer vibrar todos os presentes, muitos deles felizes de terem dispensado o concerto de The National, especialmente os que já tinham assistido ao belo concerto dado há poucos meses na Aula Magna.
Depois do cancelamento estapafúrdio das Cansei de Ser Sexy por “motivos de promoção do novo álbum” (pergunta-se que raio viriam elas fazer cá...), a sempre exuberante Peaches deu entrada mais cedo com o seu DJ set enquanto a banda de Eugene Hütz fazia a festa no palco Optimus. A folia gypsy-punk dos Gogol Bordello com todas as suas declaradas influências dos Balcãs contagiou o público que já os tinha visto actuar em Paredes de Coura. Energia que se repetiu com o regresso dos suecos The Hives a Portugal, para novamente promover “The Black and White Álbum”. O onanismo do acto do vocalista Howlin’ Pele Almqvist, foi recebido com estranheza por alguns e com entusiasmo por tantos outros, enquanto passeavam o auto-proclamado estatuto de melhor banda (punk) rock (n’ roll) do mundo e as suas aperaltadas figuras de palco pelo alinhamento frenético constituído por novos sucessos como “Tick Tick Boom” por outros mais antigos como “Main Offender”, “Hate to Say I Told You So” e a agradavelmente desenquadrada “Diabolic Scheme”.
O público dos Rage Against the Machine, a primeira banda confirmada do festival e a principal razão de muitas presenças no Passeio Marítimo de Algés, podia já estar a ficar impaciente mas tudo se dissipou quando a mensagem político-social (talvez levada a um extremo desnecessário com a entoação da Internacional Socialista) dos anos 90 de Zach de la Rocha e Tom Morello voltou a ecoar por território português, num acto de nostalgia pendente. A aclamação em massa em “Testify” e principalmente na derradeira “Killing in the Name Of”, deixa espaço para pensar nas possibilidades, ainda que ínfimas, de uma reunião em estúdio de uma banda que parece manter a mesma força e reverberação de outrora.
Dia 2
Mais um dia, mais um cancelamento, desta vez dos Nouvelle Vague. Algo que permitiu a John Butler e o seu trio/quarteto dar um concerto mais completo e despreocupado. Algo que veio a surpreender o público no seu virtuosismo e saudável mistura de folk, jam e bluegrass. O músico soube aliar as suas francas capacidades de instrumentista dotado a um alinhamento que acabou por conquistar os mais incrédulos.
Pouco tempo depois, já com o sol-posto, sobe ao palco a razão do festival para muitos. Bob Dylan e a sua banda chegam sem pompa ou circunstância, vestidos a rigor. Muito se tem dito sobre a prestação de Dylan, tanto pela ausência de interacção com o público, pela isenção da habitual guitarra como pela fragilidade demonstrada pela idade. Quem esperava um Dylan jovial, comunicativo e impecável na forma vocal saiu inevitavelmente desiludido. Mas quem possui essas expectativas não tem de todo noção de quem é de facto Bob Dylan, uma personagem autónoma de quem é o ser humano por detrás dela. Ele é o que sempre foi... evasivo, misterioso, imprevisível, insondável, profético. Como fez em toda a sua carreira, deixou que a música falasse por si... para quem estivesse disposto a ouvi-la, obviamente. Quase se sentem ecos da mesma desilusão documentada aquando da metamorfose de Dylan de ídolo folk para rocker experimental, há mais de quarenta anos atrás. Pensar que se conhece Bob Dylan é de uma ingenuidade quase cómica, e este trouxe a Portugal mais uma reinvenção da imagem que apresenta de si mesmo. Os blues aliados ao folk e ao country foram as sonoridades escolhidas para reapresentar músicas tão emblemáticas como “Desolation Row”, “Ballad of a Thin Man”, “Highway 61 Revisited” e “Tangled Up In Blue” bem como para mostrar novos capítulos do seu Modern Times como a apoteótica “Thunder on a Mountain”. “Like a Rolling Stone” finalizou o concerto para grande alívio do público com necessidades cantarolantes que bradou o refrão em plenos pulmões. Dylan, no entanto, não renegou a mesma postura austera e não se deixou contagiar. É assim que deve ser recordado este concerto memorável, pelas mesmas razões que fazem dele o ícone cultural intemporal que é: o poder imortal das palavras e das histórias aliado a uma transfigurante necessidade de mudança. Bob Dylan foi Bob Dylan.
Enquanto vários DJs enchiam o espaço deixado por uma outra ausência lamentável no festival, desta feita da “up and comer” Uffie, os Within Temptation subiam ao palco. A disparidade das faixas etárias foi talvez das mais acentuadas do festival, com os pré-adolescentes a tentarem-se colocar na primeira fila para assistirem ao “espectáculo gótico” da banda da “angélica” Sharon Del Adel, contrastantes com o público bem mais maduro de Dylan.
A fechar a noite, a banda portuguesa com maior destaque no festival: os Buraka Som Sistema, que se preparam para lançar o primeiro álbum. É interessante verificar o crescimento acentuado do colectivo lisboeta, especialmente depois de terem sido a “curiosidade” suprema do Hype@Tejo há dois anos atrás. A modéstia dessa actuação foi totalmente substituída por uma exuberante produção de palco e uma surpreendente firmeza da actuação, que contou com muitos convidados. Apresentaram temas novos e antigos, como “Yah” e “Wawaba” e também o single “Sound of Kuduro”, que conta com a participação de M.I.A. A energia contagiante da rave urbana teria ido pela noite dentro mas os Buraka Som Sistema saíram com a promessa certificada de que serão a banda portuguesa que mais dará que falar além-fronteiras aquando do lançamento de Black Diamond.
Dia 3
Mais um dia forte no Metro on Stage. Depois da actuação promissora dos Midnight Juggernauts, teve lugar no palco secundário o mais efusivo espectáculo de música electrónica e um dos maiores acontecimentos do festival. Róisín Murphy, ex-Moloko e já com dois grandes álbuns em nome próprio, mostrou quem realmente é naquela que foi a maior enchente deste palco. Num espectáculo que misturou pop, funk, dance e electro a irlandesa conquistou de imediato um público que rapidamente se prostrou aos seus pés. Num contágio viral dançante e frenesim megalómano, foi revelando temas de Ruby Blue e principalmente Overpowered, cujos apresentação arrojada ao vivo deixou muitos boquiabertos com os moves old-skool, indumentária sempre a alternar entre o “minimalista” e o exuberante, e uma atitude sempre ousada e vigorosa. Houve tempo para recordar a melhor música do seu colectivo anterior em “Forever More” mas foi com “Ruby Blue”, “Overpowered” e “Let Me Know” que brilhou mais alto. “Primitive” foi um dos momentos altos de todo o festival, com a cantora a mostrar um afecto desmedido por todos os membros da sua banda. Acabou com “Ramalama” e no chão em disputa “performática” com as suas duas bailarinas/backing vocals. Memorável parece uma palavra pouco descritiva para adjectivar este excelente concerto. A satisfação mais que evidente de Róisín na aderência total do público faz acreditar num regresso muito em breve.
Enquanto isso a nostalgia abarcava aqueles que viam Neil Young percorrer os temas mais importantes da sua carreira no Palco Optimus. Com especial incidência em Harvest, o músico e a sua banda, que inclui a sua esposa, passou por clássicos como “Heart of Gold”, “Old Man” e a enérgica “Rockin’ in the Free World”. Do outro lado subiam ao palco os The Gossip para uma actuação grandiosa e quase de apoteose, sublinhando-se um final onde Beth Ditto desceu ao público, enquanto este subia efusivo para o palco para aquele que era o último espectáculo europeu da banda, que também teve a capacidade de seduzir novos admiradores para a sua mistura de rock mais agressivo com o punk soul da colossal voz de Ditto.
Pouco depois, o palco principal encerrava com a actuação de Ben Harper, que foi novamente recebido como herói de uma plateia rendida muito antes de o músico entrar em cena. No entanto protagonizou um dos concertos mais desinspirados do festival, com a alma reconhecida do compositor a não se fazer sentir para além do minimamente expectável e onde cada música era tocada pelos seus The Innocent Criminals com a mesma falta de garra e convicção da anterior. Acabaram por se apresentar com uma profissional mas apática actuação que não fez justiça à qualidade delirante dos concertos que se viveram durante estes três dias de Optimus Alive.
O balanço é no entanto mais que positivo e espera-se que o cartaz do ano que vem reflicta o mesmo eclectismo e colmate todas as falhas organizacionais para se começar a sedimentar enquanto um dos mais importantes festivais de música europeus.
Olá! Chamo-me Pena, Ana Pena, conto 23 anos e as minhas medidas não são 86-60-86 =)Brincadeiras à parte antes de mais quero agradecer o convite do André. A verdade é que ele não sabe no sarilho que me (se) meteu porque não sou crítica nata e até podia escrever sobre coisas que não têm interesse nenhum, mas escrever bem, só que nem esse é o caso. Não sou grande conhecedora de nenhuma das várias artes deste mundo. Tentarei transmitir o que aquilo que gosto me transmite (e mandar bocas foleiras ao que não gosto!:) ). O prazer que retiro destas coisas a que se chama arte, sobretudo da música, é mecânico, e como tal nunca hei-de ser mulher de muitas palavras, não se preocupem!
Começo a meu ver da melhor maneira, com uma peça que fui ver na quinta. Sabia que ia estar perante uma grande actriz, a Maria João Luiz. Só a tinha visto nas famosas novelas da TVI, nunca em palco, mas quando a via quase me lambia de gozo. Era um prazer vê-la representar nem que fosse a personagem mais cliché. O nível da sua interpretação era sempre soberbo. Logo nos primeiros minutos percebi que estava perante uma mulher que nasceu actriz. A sua capacidade de transfiguração absoluta, assustou e deliciou. Senti-me na mesma sala em que se movia e falava compulsivamente um peso pesado dos palcos nacionais. Maria encarna Maria, uma ex-prostituta que vive na miséria. A prisão e o desaparecimento do filho assenta em si um rancor irreversível contra a sociedade que vira a cara e lava daí as suas mãos. Num discurso vertiginoso no ritmo (dá uma vontade constante de inspirarmos nós próprios para ganharmos fôlego), trabalhado a linguagem de rua que proporciona quer momentos caricatos quer trágicos, Maria feita Maria prende-nos no seu círculo de raiva, dor e permanente inquietude em que a vemos definhar alucinantemente até ao fim. O texto é bom, claro, mas esta senhora…esta senhora. Por ridículo que pareça a sua capacidade de mutação total fez-me sentir como o ser humano pode ser tudo, na escala que vai do cordeirinho à besta. E os bons actores são os únicos que conseguem mudar entre o cordeirinho ou a besta, quando querem. Muito honestamente não percam uma oportunidade de ver esta senhora em palco.
Ah, já agora =) a peça chama-se Stabat Mater, em alusão ao sofrimento de Maria durante a crucificação de Cristo. De resto os nomes das personagens são claras alusões ao mítico episódio cristão. O espectáculo estreou-se em 2006 numa igreja abandonada da Graça, o convento das Mónicas, andou em digressão pelo país e terras de Espanha, retornando este mês a Lisboa, pela mão da edição deste ano do Festival de Teatro de Almada (infelizmente o último dia é já amanhã e não sei se irá ser reposto!). Valeu à actriz o Prémio 2006 de interpretação da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Texto de António Tarantino. Encenação de Jorge Silva Melo. http://www.artistasunidos.pt/stabatmatter.htm
(PS – Só hoje vi a capa da Blitz e não consegui conter uma gargalhada. Não soube se me havia de rir mais de “Coldplay a banda que toda a gente gosta” ou do resto da frase “mas não admite”. Compensou a entrevista a Mariza, Rite Lee e The National, e o comentário bonito ao The Best Of Radiohead.)
(eu sei que disse que ia ser de poucas palavras…é só neste que é o primeiro!)
Há quem me ache musicalmente maníaco-depressivo. Eu discordo fortemente! Simplesmente gosto de música profunda e da superficialidade (em tudo na vida) fujo como o diabo da cruz. Acredito piamente que os dois maiores motores da criação humana e artística, são a dor e a morte. Não é uma visão que se revista de pessimismo gratuito, sempre que abordo este tema lembro das palavras tão simples e tão geniais, desse monstro que era o Leonardo Da Vinci, que dizia tão somente: “onde há muito sentimento, há dor!”. Esta frase faz-me excluir o motor “amor”, porque ainda que seja a mais bela das ilusões e tenha inspirado milhentos artistas, é a dor de amar que a meu ver provoca o processo criativo. Aceito discórdias, quanto a isto, mas é a visão sentimentalista que tenho da música. (Até nisto o português é bonito, “amor” rima com “dor”).
Esta lógica de ideias surge como introdução ao compositor de que quero falar e a uma obra específica do mesmo. O senhor Tchaikovsky é acima de tudo um GRANDIOSO compositor, simplesmente fascinante. Mas quando falamos em Tchaikovsky, normalmente surge-nos um sentimento de harmonia e beleza fora do comum. Surge-nos imediatamente as obras imortais deste génio, lembramos aqueles bailados, o Quebra-Nozes, o Lago dos Cisnes, o Romeo e Julieta, provavelmente aquele excelso concerto para violino ou até mesmo aquela introdução fulminante do concerto para piano que aparece em qualquer reclame foleiro de iogurtes com uma propriedade qualquer inventada à pressão que regula ou cura um problema qualquer, problema esse que ou não se cura ou então não vai lá com iogurtes! Pronto…estas obras mencionadas, convém dizer que são obras maiores dentro do reportório da música erudita e portanto faz todo o sentido serem recordadas. O que me espanta um pouco é que a 6ª Sinfonia deste senhor raramente vem à baila e não percebo muito bem porquê…será por ser a melhor obra que este alguma vez compôs? Ou há sentimentos privilegiados e mais convenientes de serem dados a sentir?
Tchaikosvky considerou a sua “Patética” como a melhor obra que compôs. Eu concordo. Esta obra é uma despedida do compositor ao mundo. O que mais me intriga na Sinfonia são os dois últimos andamentos. O 3º Andamento é uma imensa celebração do nada. Ao escutarmos atentamente notamos que toda esta massa sonora pertence ao Absurdo, há toda uma pompa e glorificação, mas esta está imersa na mais profunda das ironias, como um riso perante a morte. De repente tudo cessa e começa um “Adagio Lamentoso” silencioso, onde tudo chora, onde não há qualquer tipo de esperança, onde já só há o peso da despedida pois a morte chega. Perante isto eis a profundidade que me arrepia, que me revolve as entranhas e me comove, mais do que qualquer outra obra deste compositor, nesta ele vai ao âmago da sua alma e expressa-a com uma fatalidade extraordinária. Nove dias após a finalização da peça, Tchaikovsky morre. Uns dizem por consequência de ingerir água contaminada, outros falam em suicídio, parece-me irrelevante a causa…a obra estava concretizada, o Requiem escrito e a despedida feita…
Eu gosto da Amy Winehouse. Gosto das músicas que ela escreve e da maneira como as interpreta. Não quero, de maneira nenhuma, fazer o papel de "advogado do diabo" mas tenho lido e ouvido bastantes críticas péssimas em relação ao concerto dela no último Rock In Rio. Eu não fui vê-la e por isso, antes de formular uma opinião, decidi ver os vídeos todos que estão no youtube e que foram transmitidos em directo pela sic radical. E a minha opinião é muito simples: tomara milhões de cantoras por esse mundo fora terem um por cento da voz da Amy, e da sua genuína e sincera interpretação e até da sua honesta demonstração de sentimentos ("Love Is A Losing Game"), mesmo quando ela está rouca e com álcool e/ou drogas a mais em cima. Se me apresentarem uma compositora e intérprete ao nível desta Amy que apareceu no Rock In Rio, eu próprio peço um empréstimo ao banco para lhe gravar um disco. Espero que alguém tenha a decência de a enfiar num estúdio e gravar aquela voz rouca. Antes de ser internada outra vez.
Amy Winehouse - "Tears Dry On Their Own" (ao vivo no Rock In Rio 2008)
Oops... He did it again! Eu sei que já abusei do tempo de antena sobre o David Byrne mas ele gosta de me surpreender. Agora meteu um orgão no meio dum armazém em New York, ligou as teclas a certas partes do edifício e... voilá! Vale a pena ver o vídeo em que ele explica tudo:
De luto. No passado dia 14, juntou-se mais um nome à Grande Orquestra do Além. O pianista de jazz Esbjorn Svensson (famoso pelo seu trio E.S.T.) vai, com 44 anos de idade, poder tocar com Miles, Coltrane, Mingus e muitos outros. Este pianista sueco, juntamente com Dan Berglund no contrabaixo e Magnus Ostrom na bateria, foi construíndo uma carreira com base no desafiar constante das fronteiras do Jazz. Conquistou o respeito da crítica e a admiração do público com a fusão de standards com ritmos pop/rock e alguns apontamentos electrónicos. Com 13 àlbuns editados em 15 anos de carreira, este trio foi abrindo muitas portas do Jazz ao público Pop/Rock e também abriu as janelas do Pop/Rock aos músicos de Jazz. Bastou deixar entrar uma brisa do universo Pop/Rock para o Jazz ganhar outro ar, outra cor diferente do corrente free/improv mas igualmente contemporâneo. Por tudo isto mas principalmente pela obra gravada, e deixada como herança para todos nós, só me resta dizer: Obrigado Esbjorn! (Agora vais ter o prazer de tocar o "'Round Midnight" ao lado do próprio Monk...)